Paroxismo de Lirismo

Estendida sobre um leito estreito que cheira à velhice malograda. Profundamente inerte entre papéis com rabiscos disléxicos, quinquilharias e livros incompletos. A consciência atordoada pela inércia eterna, agonia lancinante e ansiedade dessa véspera ininterrupta de mudança.  O tempo é medido pelo estralar repulsivo da cartela de remédios e pela frequência com que reaquecemos o café.  Esforço-me para revisitar uma memória doce. Você tinha um maiô amarelo, uma orquídea fresca nos cabelos negros esvoaçantes e um balde cheio de promessas.Você colecionava conchas e tinha medo de algas.O sol era escaldante e o corpo encharcado de sal. O mar tremeluzia agoniado, era meio-dia. Eu corria eufórica para o oceano , com a areia quente sob meus pés.  Momentos frescos, momentos novos. Quando sua única preocupação era : Onde iríamos comer?tomaríamos sorvete depois?E se não tivesse o sabor rosa? Mas essa lembrança se esvai como a água salgada,ardendo ao escorregar fugidia por entre seus dedos. Você quer desvencilhar esse corpo quebradiço, desbotado e miserável do caos monumental. Torno-me cada vez mais covarde diante da iminente impossibilidade de superar o ímã sórdido, a areia movediça, o redemoinho abissal, o buraco negro faminto, o abismo interminável. Recolho-me, pois, amargurada sob o lençol úmido de lágrimas, frias como agulhas metálicas. Uma náusea intermitente. Você já não pensa como antes. Uma saudade de limpeza,ordem e cuidado que sua mente outrora posssuía te envolve em um abraço triste.Deitar-se é um tormento, você endireita obsessivamente sua postura em meio a uma cama que lhe parece preocupantemente  confortável demais, porque você é assim, um espírito tragicamente exigente,ou melhor, insaciável. Esse contorcionismo energético à procura da ilusória posição ideal é a vida , mas os pensamentos não descansam, nunca descansam. Recolho-me no canto da cama, os braços envolvendo as bambas pernas.O aposento então começa a encolher como uma cobra perversa , sufocando-lhe o ar.  Rompendo-lhe os ossos , convertendo-a numa pasta disforme. O coração soca violentamente a caixa torácica , como pedra lançada num vidro fino.  Você vai estilhaçar . Você vai estilhaçar e seus cacos egoístas partirão tua família , então se contenha.  Um abraço seria bom , mas você afastou todo mundo. Tornou-se um vício abandonar tudo que era importante para você. Você se estica em direção à janela e nota a sombra da figura execrável sempre à espreita , por detrás da persiana translúcida, que impede que a nesga vital de raios dourados penetre nessa cela solitária . Levanto-me , meu corpo dói , parte da alma permanece inerte no leito, minhas pálpebras estão pesadas e estou zonza demais, há uma atração cega do meu olhar pela identidade da silhueta negra eternamente presente. Rasgo a persiana. Observo, atônita, meu reflexo fundir-se a cada fragmento daquele ser antes irreconhecível. Ah , esses olhos cheios de vermes , essa decomposição sórdida.  Uma parte de mim , meu bem. Você é uma parte de mim . Sondando-me como um urubu desesperadamente faminto. Retribuo-lhe o sorriso apático, o olhar de comiseração. Suplico-lhe que me abandone como os demais, que me devolva a ignorância reconfortante e o entusiasmo pueril . Ela se afasta, olha-me intensamente, sinto-me fraca. Entendo a mensagem. Sigo obstinada aos seus passos pesados e arrastados, um ritmo agonizantemente regular, como a contração do miocárdio em meu peito, agora amedrontado pelo destino e dotado de um apego miserável a essa vida desgraçada. Perambulamos inutilmente , contemplando a irracionalidade do mundo,à procura de um subterfúgio, à procura de uma coerência, à procura de uma profunda distração, à procura da pílula azul inexistente aos permanentemente renegados.  Caminhando ao longo do penhasco com vista para o mar  ,vejo-a nitidamente sob o sol agora . São apenas cinzas fustigadas pelo vento, arrastadas a esmo por ruelas e becos desolados, saturadas de solidão e angústias sufocadas. Apenas uma errática à margem de uma sociedade repugnantemente julgadora, à procura de um covil inviolável e inaudível para esbravejar guturalmente contra essa condenação ególatra e injusta a um espírito excessivamente sensível. Apenas uma silhueta opaca e decadente sentada ao fundo da sala com uma serenidade ilusória, figura de cujos olhares são desviados, tamanha irrelevância da existência. A figura negra , pois , encara-me no cume do penhasco, seduzindo-me ridiculamente com um sorriso rasgado,cínico, amarelo. Pego um martelo imundo ,lhe quebro os dentes , ela convulsiona como um lunático , as baratas a brotarem do canto da boca, empurro-a para o abismo, para o oceano . O mesmo mar que me atraiu um dia , o mar que me levou um dia .

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